INSPEÇÃO JUDICIAL DO STF DEVE EXPOR ESPOLIAÇÃO DE TERRAS PÚBLICAS DE RONDÔNIA
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| Casa destruída seringuerio Resex Jaci Paraná, Porto Velho RO. |
Inspeção judicial para a primeira semana de maio de 2026,
ordenada pelo Ministro Zanin do Supremo Tribunal Federal, deverá expor um dos
maiores roubos de terras públicas de Rondônia: O saqueio da madeira e grilagem
da maior parte das 196.000 hectares remanescentes da Reserva Extrativista de
Jaci-Paraná.
Terras cedidas pela União ao Estado de Rondônia para criação
de uma unidade de conservação destinada a preservação da floresta, corredor
ecológico e uso sustentável para centenas de famílias de seringueiros, comunidades
tradicionais que desde o século XIX vivem no local do extrativismo da floresta em
pé, como a extração da seringa, do açaí e da castanha.
O seringal situado longo do Rio Jaci Paraná remonta ao final
do século XIX e início do século XX, sob o barão da borracha Sr. Isaac Benyon
Sabbá, que após a primeira crise da seringa foi reativado durante a Segunda
Guerra Mundial, na época dos Soldados da Borracha.
As dificuldades posteriores não fizeram desistir estes
moradores da floresta, que viram seus territórios ressurgir do abandono com as
lutas dos seringueiros do Acre, lideradas por Chico Mendes na década dos anos
80, se opondo as forças de colonização, conseguindo no Brasil e também em
Rondônia a criação das Reservas Extrativistas, com apoio financeiro do Banco
Mundial pelo Programa Planafloro.
A Reserva Extrativista Jaci-Paraná foi criada 17 de janeiro
de 1996, pelo decreto de no 7.335, nos municípios de Porto Velho, Campo Novo de
Rondônia e Nova Mamoré. Este espaço territorial é destinado à exploração
autossustentável e à conservação dos recursos renováveis por população
agroextrativista e possui área de mais de 196 mil hectares, dentro dos
municípios de Porto Velho, Nova Mamoré e o município atual de Buritis.
Figura 1:Fonte
revistaGeo
Porém a destinação dada ao território extrativista pela Lei
Complementar N° 52/1991 do Zoneamento Sócio-Econômico-Ecológico de Rondônia,
desde o começo foi negligenciada pelo Estado de Rondônia. O ataque de invasores
e grandes grileiros foi a principal dificuldade enfrentada desde sempre pelos
extrativistas que moravam na Resex.
Desde o começo da Reserva que tinha que proteger seu território tradicional, os extrativistas tiveram que enfrentar a demarcação de terras de parte de invasores armados que as tomavam como se fossem os proprietários dentro dos seus limites, sem que as denúncias reiteradas da Organização dos Seringueiros de Rondônia (OSR) servissem de nada.
Figura 2:
Seringueiros em 1995 antes da criação da Resex. https://revistageo.com.br.sevenpublicacoes.com.br/revgeo/article/view/639/460
Ao contrário, logo ficou claro que o espólio das madeiras e
das terras da Resex formava parte de uma política de fatos consumados, na qual ainda
participam os diversos poderes do Estado, se abstinham conscientemente de atuar
permitindo o roubo descarado. Primeiros das madeiras e depois, em parte
financiados pelos madeireiros, das terras públicas através do desmatamento, o
corte raso, o fogo e as queimadas seguidas do plantio de capim braquiara, como
forma efetiva de colonização das florestas e de esbulho efetivo da Reserva.
As famílias extrativistas que resistiam e não cediam aos
invasores, que apareciam sempre acompanhados de jagunços armados e ameaçadores,
eram intimidados com tiros, obrigados a vender as colocações ou a fugir com os
pertences numa canoa, para se refugiar na cidade de Porto Velho. Os que não
cediam eram assassinados.
Os extrativistas lembram de umas quatro mortes suspeitas de
seringueiros. Entre eles uma das lideranças da RESEX, CARLOS FIRMIANO DE LIMA, que
foi assassinado em Buritis em 04 de setembro de 2006. A viúva com crianças
menores de idade, foi obrigada a sair do seringal após a morte dele. A família e
os companheiros dele não tem dúvida que o motivo da morte (não reconhecida no
inquérito policial), foi a oposição que mantinha aos invasores da reserva
extrativista de Jaci Paraná.
O atual presidente da Associação Bem-te-Vi conta que ele já
foi expulso de quatro colocações, e na última, ameaçado de morte se voltava
dentro da reserva. O Vice presidente teve a casa queimada e foi ameaçado faz
poucos anos. Pessoalmente vi o seu antecessor, já idoso, sendo ameaçado dentro
da própria Assembleia Legislativa de Rondônia, na mesma audiência que fui
ameaçado de ser jogado abaixo da arquibancada por invasores do Parque Estadual
de Guajará Mirim.
A Comissão Pastoral da Terra de Rondônia faz décadas que é
pressionada por esta política de fatos consumados, que também usa parte do povo
como massa de manobra. Assim tam acontecido também como a Federação dos
Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadores Rurais de Rondônia (FETAGRO), pressionados para apoiar um grupo de famílias de pequenos
agricultores que ocuparam (ou compraram dos primeiros invasores) lotes de terra
duma Linha do Distrito de Bandeirantes, chamada Linha da Ferrugem, ou Linha do
Abacaxi.
Uma vila foi construída pelo lado de Buritis, chamada Minas
Novas, parte dum ramal que penetra pela Br 421 e pela Estrada do Parque (que
atravessa o Parque Estadual de Guajará Mirim). Mas o que predomina na região
são grandes latifúndios, fazendas enormes de terras griladas das terras da
união cedidas ao estado, inclusive com pistas clandestinas de aterrissagem de
aviões, com a total permissividade e proteção dos poderes do Estado de
Rondônia.
Em efeito, de boca miúda se conta há anos, que os servidores
da secretaria de meio ambiente que tomavam qualquer iniciativa de notificar ou
cadastrar os invasores, eram retaliados e rapidamente impedidos de qualquer
ação de proteção da Reserva. Durante décadas os invasores teriam estado
acobertados e protegidos pelos Secretários da Secretaria de meio Ambiente (SEDAM)
e pelos sucessivos governadores de Rondônia.
Um dos fatos marcantes desta proteção foi a autorização para
e entrada dos servidores do IDARON para vacinar o gado contra a aftosa. Com
desculpa sanitária, ao vez de retirar o gado clandestino, a medido passou a
tolerar de fato a existência de milhares de cabeças de boi piratas dentro da
reserva, que sem vacinar colocava em risco toda a estratégia dos pecuaristas
para declarar Rondônia como território livre de aftosa. A vacinação dos bois disparou a entrada de
cabeças de boi na região. Liberadas as guias de trânsito, carretas e carretas
carregadas de boi entraram para pastar na Resex dentro das terras roubadas aos
extrativistas, a quantidade de gado criado nas terras griladas disparou, triplicando
em dez anos, e passou a ser estimada em mais de 185.000 cabeças de bois piratas. Procedentes
de áreas ilegais como a Resex, os bois piratas são lavados em fazendas de
trânsito, partir das quais é declarado origem ambientalmente correto a pecuária
originada em áreas de devastação ambiental.
Um grande negócio em terras tomadas da União, realizado a
base de queimadas, fogo e destruição que já desmatou 75% da área que deveria
ser protegida. Devastação que derruba especialmente e de forma proposital, seringueiras,
castanheiras e açaís, as principais espécies para a geração de renda das
famílias tradicionais extrativistas.
Figura 3
https://www.raisg.org/es/radar/governo-de-rondonia-mantem-vacinacao-e-controle-de-gado-ilegal-em-area-protegida-da-amazonia/
Nem o Ministério Público de Rondônia deu conta de impedir de
fato estas ilegalidades.
‘Desde 2004, o MP já ajuizou mais
de cinquenta ações civis públicas contra invasores na Resex. Parte desses
inquéritos tiveram ganho de causa para a reintegração de posse, retirada dos
animais e invasores. Mas a iniciativa contrasta com as ações dos governos
estadual e federal. Em uma das ações, contra o próprio IDARON, o MP de Rondônia
argumenta conivência histórica do órgão com a entrada de animais na reserva sob
alegação de que a atividade da autarquia não é a fiscalização ambiental.”
https://www.raisg.org/es/radar/governo-de-rondonia-mantem-vacinacao-e-controle-de-gado-ilegal-em-area-protegida-da-amazonia/
Uma das promotoras de meio ambiente estaduais teria manifestado publicamente que evitava comprar carne nos supermercados abastecidos pela FRIGON, frigorífico que constava entre os principais compradores da carne procedente dos bois piratas procedentes da Resex de Jaci Paraná, e que depois foi condenado em ação judicial pela 1ª Vara de Fazenda e Saúde Pública do Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia pelo desmatamento de 570 hectares de vegetação nativa na Reserva Extrativista (RESEX) Jaci-Paraná, numa das raras ações civil públicas que foi movida pelo Estado de Rondônia contra o Frigorífico Irmãos Gonçalves Comércio e Indústria Ltda.
També o gigante da pecuária a JBS foi condenada em 2025 a multa
de cerca de R$ 24 milhões, foi aplicada pela compra de gado criado ilegalmente
dentro da Reserva Extrativista (Resex) Jaci-Paraná, pela Secretaria de
Desenvolvimento Ambiental (Sedam), com base em apurações da Procuradoria-Geral
do Estado (PGE), porém rapidamente foi anulada da multa pelo procurador-geral
do Estado, Thiago Alencar, confirmando a impunidade de anos na destruição
territorial e ambiental da Resex.
Nem o trabalho escravo escapou de formar parte deste quadro
de exploração danatureza e espólio das comunidades tradicionais da região,
convertidas agora em minoria dentro do seu território.
Ainda, no legislativo, com forte poder econômico para
escolher representantes na Assembleia Legislativa de Rondônia, está comprovado
que muitos dos grandes fazendeiros invasores da Resex investiram nas campanhas eleitorais
municipais do município de Buritis. Enquanto um dos grandes compradores de gado
criado ilegalmente, a JBS, é um dos principais contribuidores das campanhas eleitorais
dos deputados e senadores federais de Rondônia, os mesmos que agora defendem o
roubo de terras públicas e o espólio, com interposição de numerosos laranjas
sobre os verdadeiros detentores das fazendas clandestinas.
A maioria dos intentos legais da ALE e Governo de Rondônia não foram paragerir ou proteger a Reserva,
como era a obrigações do Estado, mas para reduzir (2011), revogar o decreto
criação (2014), e alterar dos limites (2018 e 2021) da Resex de Jaci Paraná.
Intentos que foram foram declarados inconstitucionais.
Inconstitucionais, assim como é a Lei atualmente em vigor,
criada em abril de 2025 pela Assembleia Legislativa de Rondônia, a Lei
Complementar 1.274/25, que criou o Programa Estadual de Regularização Ambiental
Diferenciado da Resex Jaci-Paraná (PERAD-RO), que anistia a ocupações ilegais e
crimes ambientais cometidos dentro da unidade de conservação, autorizando, por
até 30 anos, o uso da terra por ocupantes considerados “consolidados”, extingue
multas ambientais e ações civis públicas, legitimando por tanto a espoliação de
terras públicas destinadas aos extrativistas, e a grilagem a exploração
econômica da área.
Lei que o Ministério Público de Rondônia já pediu para ser
declarada inconstitucional. Assim como o Ministério Público Federal (MPF), que
entrou com uma Ação Civil Pública (ACP) pedindo que a União retome o controle
da unidade, pois permitindo a destruição quase total da Reserva, o Estado de
Rondônia violou totalmente as condições da cessão da área pela União, em 2004.
A invasão e manutenção da ilegalidade da Resex de Jaci Paraná é um péssimo precedente da política de fatos consumados de invasão, grilagem e destruição que tem provocado os maiores índices de desmatamento e de violência contra as populaçãoes indígenas e tradicionais da Amazônia. As invasões das TI Karipuna e TI Uuru Eu Au AU são provas disto. Assim como as mortes e invasões das Resex da Machadinho do Oeste, também em Rondônia. "Se lá deu certo, aqui também".
"Nós estamos sendo desmoralizados" comentava já faz alguns anos uma liderança sem terra de Cujubim RO. Quem pede reforma agrária fica sem resultado. Aquelas famílias que tinham abandonado o acampamento sem terra para invadir uma resex vizinha, após poucos anos já estavam criando gado nela e tendo retorno econômico, na maior impunidade e permissividade das autoridades estaduais e judiciais. Que se assanham contra as famílias de pequenos agricultores que demandam reforma agrária, mas agem com a maior lentidão contra os invasores de reservas ambientais e territórios das comunidades tradicionais.
Apresentada uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI)
7.819, sobre a Lei 1.274/25 que trata da Reserva Extrativista (RESEX)
Jaci-Paraná, em Rondônia, a última cartada da ALE RO e poderes políticos apoiadores dos
espoliadores da Reserva, foi solicitar uma inspeção judicial da área, que
deverá ser realizada agora, na próxima semana de início de Maio de 2026.
A Comissão Pastoral da Terra, assim como a Kanindé, a WWF e
a Rede Eclesial da Amazônia (REPAM) e Defensoria
Pública da União, representando os seringueiros de Jaci Paraná, tem sido
admitidos como amicos curiae pela Corte. Aquelas famílias de dentro da Resex de pequenos agricultores com perfil para reforma agrária, podem ser assentados em áreas próximas, que foram reconhecidas judicialmente como terras públicas.
Um dos objetivos é conseguir que a Inspeção Judicial enviada
pelo Ministro da Suprema Corte do Brasil, ouça com segurança e sem expor a mais
perigos os extrativistas, que já sofrem todo tipo de perseguição.
E que aguardam que justiça seja feita, após mais de trinta
anos de agressões e desterritorialização, permitindo que a área possa ser
recuperada ambientalmente e reflorestada, evitando na sofrida região da AMACRO que e impunida seja consagrada, mantendo a legalidade, o direito constitucional e a sustentabilidade
econômica, ecológica e social a que estava destinada a Resex de Jaci Paraná.


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